Entre 20% e 40% dos pacientes apresentam algum problema psicológico

As interações existentes entre a pele e o psiquismo são bastante complexas. Talvez por isso a expressão “emoções à flor da pele” seja uma das melhores formas de se definir alguns distúrbios que primariamente podem ser identificados como dermatológicos, mas que estão estritamente relacionados a condições psiquiátricas.

Estima-se que entre 20% e 40% dos pacientes que buscam os consultórios para tratamento de doenças de pele apresentem algum tipo de problema psiquiátrico ou psicológico, segundo a médica psiquiatra e diretora da Clínica Mangabeiras, Flávia Mello Soares.

Esses fatores psíquicos podem tanto causar a erupção de dermatoses quanto ser efeitos de condições dermatológicas. Alguns exemplos são: distúrbio dismórfico corporal, quando o paciente apresenta uma percepção deturpada da própria imagem; tricotilomania, caracterizada pelo ato repetido de puxar os cabelos e pelos, resultando em alopecia (ausência de cabelos); delírios de parasitose, em que o paciente manifesta a falsa crença de estar infestado por parasitas; e as escoriações neuróticas, nas quais os próprios pacientes provocam lesões na pele, através de escoriação compulsiva, geralmente após um estresse psicológico.

Outra situação é quando o impacto de estressores emocionais recai sobre algumas doenças que já são de pele, como no caso da infecção pelo HSV (vírus do herpes simples) e também na psoríase e na dermatite atópica. “Cerca de 70% dos atópicos relatam a ocorrência de estressores emocionais antes do primeiro episódio de dermatite. Além disso, vários pacientes com eczema sofrem piora de seus sintomas após episódios de estresse psicológico”, diz.

Flávia explica que, ao enfrentar provocações externas ou internas, o organismo responde defensivamente com eventos que culminam com a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. “Essa resposta é uma adaptação orgânica aos desafios, e é fundamental para a sobrevivência”, afirma a médica.

Ou seja, a pele expressa os sentimentos mesmo quando não estamos cientes deles. “A mente envia mensagens para o corpo e para a pele quando o indivíduo se sente ameaçado por acontecimentos dolorosos ou culpabilizantes. O que acontece, então, é que experiências ansiogênicas não conseguem ser pensadas ou faladas e se exteriorizam de um modo primitivo, pré-verbal”, diz. Porém, segundo a médica psiquiatra, se essa reação persistir, pode levar a exaustão e adoecimento, uma vez que o estresse crônico diminui a imunidade e favorece a progressão de infecções.

Parceria entre profissionais é fundamental

Para essas pessoas, não adianta recorrer a tratamentos apenas com profissionais como esteticistas, fisioterapeutas, dermatologistas e cirurgiões plásticos. Esses profissionais devem estar familiarizados com os mais comuns diagnósticos de doenças psicocutâneas e saber investigar suas manifestações clínicas (psíquicas ou dermatológicas) e os princípios básicos de tratamento.

“Porém, grande parte desses pacientes (senão a imensa maioria) reluta em aceitar um encaminhamento para o psiquiatra”, diz a médica psiquiatra Flávia Mello Soares.

Depoimento

“Quando eu tinha 5 anos um tio veio morar na minha casa, e certa noite, ele tentou abusar de mim. A partir daí, eu passei a arrancar (fios de cabelo). Os meus pais estranharam as falhas cada vez maiores no cabelo e decidiram me levar ao pediatra, que nos direcionou a uma psicóloga. Já passei por quatro psicólogos e quatro psiquiatras. Recebi o diagnóstico aos 7 anos, mas foi muito difícil. Já passei por vários tratamentos, mas o que mais vem dando resultado é a conciliação do psiquiatra e do psicólogo. No início foi superdifícil, o preconceito era enorme, eu não me aceitava, usava penteados para tampar, bonés, boinas, tiaras, cheguei até a usar peruca. Um ponto fundamental para essa doença é o apoio. Minha família sempre foi muito presente. Na época dos meus 15 anos, meu cabelo estava até grandinho, mas alguns meses antes tive uma recaída. Todos os meninos da minha sala rasparam a cabeça em demonstração de carinho. Quando vi minha melhor amiga com o cabelo curto, percebi que eu não sou um diagnóstico. Com auxílio psicológico eu aprendi que o maior preconceito é o que está na nossa mente. Aprendi a lidar comigo mesma e a me achar linda apesar de ser como uma montanha-russa. Foi maravilhoso me redescobrir e entender que eu sou a Kauany, eu não sou a tricotilomania!”

Kauany Stéfane Santos – 17 anos, estudante – Nova Serrana (MG)

 

Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/sa%C3%BAde-e-ci%C3%AAncia/emo%C3%A7%C3%B5es-conseguem-desencadear-e-agravar-doen%C3%A7as-na-pele-1.1608392